Legado Verdes do Cerrado registra onça-parda com dois filhotes
Registro é fruto do trabalho de monitoramento de fauna na reserva que fica no norte goiano e reflete resultados do trabalho de conservação de biodiversidade
27 de novembro de 2025
Quando pensamos em enfrentar as mudanças climáticas, muitas soluções parecem complexas ou distantes. Mas algumas das respostas mais eficientes já existem e estão na própria natureza.
Florestas, savanas, solos vivos, corais e paisagens naturais funcionam como grandes sistemas de captura e armazenamento de carbono. Ao manter esses ecossistemas saudáveis, garantimos o funcionamento de processos naturais que ajudam a equilibrar o clima do planeta.
Isso acontece porque a natureza tem a capacidade de retirar carbono da atmosfera e armazená-lo na vegetação, no solo e até em corpos d’água. Esses ambientes são conhecidos como sumidouros de carbono e, quanto mais íntegros estiverem, maior será sua contribuição para reduzir o acúmulo de gases de efeito estufa no ar.

Esse processo começa com um mecanismo essencial para a vida terrestre: a fotossíntese.
Por meio dela, as plantas absorvem dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera e, utilizando energia do sol e água, transformam esse carbono em matéria orgânica que sustenta seu crescimento. Assim, o elemento passa a integrar a própria estrutura da vegetação, estando presente nos troncos, folhas, galhos e raízes.
Esse fenômeno ocorre em escala global. Estima-se que a fotossíntese movimente cerca de 120 bilhões de toneladas de carbono por ano, revelando a dimensão do papel das plantas no ciclo climático do planeta. À medida que crescem e os ambientes naturais se desenvolvem, parte desse carbono permanece armazenada na paisagem por décadas ou até séculos.
O carbono não está apenas nas árvores
Quando se fala em captura de carbono, é comum imaginar grandes árvores. No entanto, elas representam apenas uma fração do estoque existente nos ecossistemas naturais.
Os solos estão entre os maiores reservatórios de carbono do planeta. Somente nos primeiros 30 centímetros de profundidade existem aproximadamente 680 bilhões de toneladas de carbono, quase o dobro da quantidade presente na atmosfera.
Isso mostra que cuidar do solo é tão importante quanto manter a vegetação saudável.
Quando folhas caem, raízes morrem ou galhos se decompõem, esse material orgânico passa por processos naturais e acaba incorporado ao solo. Com o tempo, transforma-se em matéria orgânica capaz de reter carbono por longos períodos, ajudando a mantê-lo fora da atmosfera.

Nos ambientes naturais, esse elemento não fica concentrado em apenas um componente da paisagem. Ele se distribui entre diferentes partes do sistema ecológico.
Estudos indicam que as florestas do mundo armazenam cerca de 861 bilhões de toneladas de carbono, distribuídas entre árvores vivas, madeira morta, serapilheira e solos. Desse total, aproximadamente 42% está na vegetação viva e cerca de 44% no solo, enquanto o restante se encontra em matéria orgânica em decomposição.
Esse conjunto de estoques faz das paisagens naturais uma das principais infraestruturas climáticas do planeta.
Por essa razão, a capacidade de capturar carbono está diretamente ligada à qualidade do ecossistema. Ambientes com grande diversidade de espécies, solos estruturados e ciclos ecológicos ativos conseguem absorver e armazenar carbono com maior estabilidade ao longo do tempo.
Florestas, savanas e solos bem conservados funcionam como sistemas vivos que retiram carbono da atmosfera continuamente. Quando essas áreas sofrem degradação, parte desse estoque pode retornar ao ar. Em contrapartida, a restauração de ambientes naturais e o manejo responsável da paisagem ampliam essa capacidade e reforçam o papel da natureza como aliada no enfrentamento da crise climática.
Um território que transforma conservação em valor
No Legado Verde do Cerrado, a gestão do território parte justamente dessa visão integrada.
No território, biodiversidade, solo, água e paisagem formam um sistema interdependente. Cada elemento influencia o outro e, juntos, sustentam processos naturais que mantêm o equilíbrio da área. Monitorar essas dinâmicas, manter os ecossistemas íntegros e desenvolver soluções a partir da proteção florestal permite transformar conservação em valor ambiental, climático e social.
Quando a natureza está saudável, ela realiza algo extraordinário: trabalha continuamente para equilibrar o planeta.
As árvores retiram carbono da atmosfera. O solo armazena matéria orgânica. A biodiversidade mantém os ciclos ecológicos ativos. E a paisagem, como um todo, se torna mais resiliente às mudanças do clima.
* Thayná Agnelli é jornalista formada pela FAPCOM, tem experiência em gestão de redes sociais e é responsável pela criação de conteúdos para o Legado Verdes do Cerrado.
A pesquisa, liderada pela bióloga Larissa Verona em dissertação de mestrado defendida em 2024 no Instituto de Biologia da Unicamp com apoio da Fapesp, analisou solos em sete áreas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO). Os resultados indicam que esse carbono vem se acumulando há cerca de 20 mil anos.
Assim, cuidar de territórios naturais não significa apenas proteger espécies ou manter paisagens intactas. Significa também garantir que a natureza siga fazendo aquilo que faz melhor: manter a vida em equilíbrio.